Manguear

A tentativa diária de moradores de rua para serem inclusos e vistos como cidadãos.

FABIANA SOUZA


A pele negra, cansada, denunciava o estado da alma: lânguida. Os ossos salientes, os pés inchados nos chinelos sujos contavam o caminho. “Meu nome é Moisés, eu moro aqui na rua, mesmo”.

Moisés abriu o sorriso sem dentes quando viu a câmera, “Eu vou passar na televisão?”, e não soube disfarçar a insatisfação quando soube que não passaria. Os olhos curiosos pra câmera, para a repórter. Impôs que só aceitaria ser fotografado se sua cadela saísse na foto, “é Madeira, o nome dela. Eu passo lá no depósito [de materiais recicláveis] e ela vem correndo atrás de mim. E ela é braba, viu?”.

Assim, a foto é registrada: Madeira, Moisés e seu carrinho cheio de garrafas e latas vazias, “isso aqui [materiais recicláveis] não dá nada não, é 20, 30 conto por dia. É melhor manguear.” e pedindo esmola, Moisés passa por cima dos absurdos do mundo, “eles me perguntam se eu fumo droga, se eu bebo cachaça. E eu não bebo, não. Nem fumo”. Sorrindo, sem perceber a gravidade do problema, o herói das ruas conta, “eles falam: “Eu vou te dar, mas é pra você beber, se você for beber eu dou”, e eu digo “vou! Vou beber bem ali” e pego o dinheiro e guardo”.

Moisés faz parte das 351 pessoas que estão em situação de rua, hoje, em Goiânia. O número foi divulgado pela Secretaria Municipal de Assistência Social (Semas) e só tem crescido nos últimos anos. Assim, centenas e centenas de homens e mulheres “magueam” pelas ruas da capital. E claro, nem todos atrás somente de comida, como Moisés.

“Eu não quero ficar na rua. Os cara da [avenida] Goiás quer roubar meu carrinho, quer me bater, quer furar eu. Tudo pra roubar os trem da gente e comprar droga. Isso lá é vida?”

Sentado na calçada, ele conta das frustrações dos últimos dias. Roubaram seu carrinho, o ameaçam, o agridem, “eu não sou de briga”. Justo, Moisés cresceu nas ruas, mas é adepto do “é melhor pedir do que roubar”.. No bolso, uma carteira do Goiás, “é meu time!”. Ali dentro, nada além de seu RG. “NÃO ALFABETIZADO”, diz o carimbo ao lado de sua foto 3×4. “Toma, eu não sei ler, mas você sabe”, a repórter conta a ele sua idade, “tenho 49, é? E que dia é o meu aniversário?”. Fica no ar o questionamento: Qual foi a última vez que alguém parou para falar com aquele homem? Seu aniversário é em agosto. 17 de agosto.

Em meio a conversa, Moisés, que tenta parecer forte, desabafa: “Cê podia me ajudar a ganhar um barraco, que é pra eu sair da rua. Eu não quero ficar na rua. Os cara da [avenida] Goiás quer roubar meu carrinho, quer me bater, quer furar eu. Tudo pra roubar os trem da gente e comprar droga. Isso lá é vida?”. A saliva desce feito pedra. Moisés nem se lembra quando foi que teve uma vida para chamar de vida, “morreu todo mundo, minha mãe, meu pai… Meu pai morreu com uma ferida na perna. Não cheirava, não bebia, não fazia nada. Ia pra Igreja “Deus é amor”? Sabe, a Deus é amor? Pois é, e morreu por causa de uma ferida.

Moisés, 49, sem casa, família ou escolaridade, dá uma aula de simpatia, apesar da dura realidade. Foto: Álvaro Menezes.

O homem de sorriso sem dentes esmorece e só volta a sorrir quando fala de seu amor. “Eu tenho uma namorada. Ela mora bem ali, depois daquelas árvores”, e aponta esperançoso para o fim da rua, “eu quero arrumar um barraco pra eu morar com ela. Não posso largar minha mulher, não. Se eu largar a mulher, que dia que eu vou ter um filho com ela?”. Queimado do sol impiedoso, marcado das ruas traiçoeiras, ele ainda acredita no amor e se recusa a ir para abrigos, “morar sem minha mulher? Cê tá doida?”, questiona à repórter.

Moisés, com as roupas sujas e o cabelo despenteado, se torna cada dia mais invisível àquelas calçadas. Negro, analfabeto, sem família ou conhecidos. Mais um para a estatística que a sociedade criou, matou e deixou agonizando no sinal. Quando a repórter se despede, Moisés faz seu último pedido: “Põe eu na televisão, fala com o governo pra mim. Eu quero sair da rua”. Os ouvidos de quem escuta ardem, as pernas pesam. Os braços e a cabeça doem. O coração chora. Enquanto isso, Moisés sorri, “eu não tenho pressa”.

Vício: a ferida social

Os passos cambaleantes, lentos, seguiam ao acaso. A cabeça baixa, os cabelos desgrenhados e a barba por fazer escondiam o olhar cerrado, arredio, “cê quer o quê?”. Conversar, apenas conversar. A primeira pergunta foi o nome, que veio completo, de pronto, sem pausas, “José da Silva Santos”. Ao seu lado, um colchão enrolado e um cobertor sujo. “Eu bebo cachaça, e não é pouca”.

José, visivelmente embriagado, tem o olhar vago e fala com dificuldade, “só hoje eu já bebi 10 carotinho [cachaça] ou mais”. O bafo fede à vergonha, tristeza, “sou mais viver na rua do que ficar dando vergonha pra minha família. Eu não quero dar trabalho pra eles como eu já dei, não”. Em Goiânia há 23 anos, José, de 38 – que bebe desde os 15 – perambulava pelas ruas há cerca de 15 dias. “Eles [família] não sabem que eu tô morando na rua, não. Se soubessem, iam ficar revoltados demais. Eu não vim pra cá pra ficar nesse mundo imundo”.

As palavras de Zé, até então arrastadas e de difícil compreensão, ganham um outro tom. “Eu quero ir pra uma casa de recuperação, recuperar minha vida”, vida essa, que não foi arruinada apenas pela bebida, “deve ter umas 3 horas que eu fumei [crack]”, questionado sobre o seu estado em relação à droga, a resposta vem em forma de deboche, como se fosse óbvia, “eu não sinto porra nenhuma, não, doido. Não dá ilusão nenhuma mais não”, e, indignado detalha sua trajetória ao lado dela, “eu comecei na maconha, depois cheirei pó, depois veio a porra da merla, fumei merla, depois veio a merda do crack, e eu tô fumando crack”.

José chora ao contar sua trajetória com as drogas. Foto: Álvaro Menezes.

Sobre o problema de José, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), ligada ao Ministério da Saúde — e em parceria com a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad), do Ministério da Justiça — realizou um levantamento que revelou que, cerca de 370 mil brasileiros de todas as idades usaram regularmente crack e similares (pasta base, merla e óxi) nas capitais brasileiras durante pelo menos seis meses em 2012. Esse número corresponde a 0,8% da população das capitais e a 35% dos consumidores de drogas ilícitas nessas cidades. E um agravante, desse total, 14% têm entre 8 e 18 anos, isto é, crianças e adolescentes.

Eu só não sei por que eu não largo essa pinga e essa droga. Mas eu sou inteligente, moleque, não sou bobo, não”

Vejo na expressão de José o esforço para conter o choro, que sai mesmo assim, teimoso. O sofrimento é convertido em lágrimas. Ele limpa o rosto e estende as mãos molhadas de dor, “tá vendo esses calos, aqui? Eu sou borracheiro, eu sei montar e desmontar um carro, tá ligado? Se hoje você precisar de um pedreiro, eu sei como fazer da base até o acabamento”, revoltado, ele vocifera que teve pouco estudo, mas desse pouco, era um dos melhores, “eu nunca tirei menos de 90 [pontos] nas minhas provas”. O homem bêbado continua chorando.

José fala de ser “sujeito homem”, de voltar pra escola e pra casa da família. O único problema é que o vício não deixa, “eu só não sei por que eu não largo essa pinga e essa droga. Mas eu sou inteligente, moleque, não sou bobo, não”. Ali se mostra o início da fagulha, o desejo de viver. José, que já tinha se despido da vergonha, responde de pronto ao questionamento sobre procurar uma casa de apoio, “se você quiser me levar, eu tô pronto pra ir”, a resposta sai quase como um clamor. O rosto da repórter arde, as mãos tremem. Sobre onde ficarão as suas coisas, José é claro e objetivo: “Minhas coisas vão ficar bem aí onde estão”. Percebe-se então, que aquela conversa não poderia acabar ali. José saiu acompanhado da equipe de reportagem.

No caminho para a Casa de Apoio Metamorfose, no Setor Campinas, José se olha no espelho do retrovisor do carro, “eu tô feio pra caralho, hein?”, ainda chocado com sua aparência, ele conta como foram os últimos dias, “eles [polícia] passam aí e pegam todo mundo. Só não pegam eu, porque eu não devo nada, tô sempre puxando meu carrinho. Não devo nada pra justiça, pra ninguém. Nunca roubei e nem matei”. Em meio à conversa, com José um pouco mais descontraído, ele muda de assunto, “sou geminiano” e brinca “sabe que eu até tenho vontade de arrumar uma mulher?! Mas a gente tem ter capacidade pra ter elas. Dentinho limpo, roupinha bonitinha… Se for pra ter essas da rua é fácil. Aí eu não quero”.

Entramos no Metamorfose e, em todo momento da conversa com o diretor da Casa, que pediu para não ser identificado, José afirmava “eu quero mudar, eu quero sair dessa vida”. Daquela parte em diante, já não era mais com a repórter. José beijava a mão de todos da equipe e agradecia. Ninguém sabia o quê dizer. A repórter sai dali diferente. O peito cheio, os olhos lacrimejando sem saber se choravam ou se sorriam, mas isso não importa.

José pode começar uma nova vida, agora.

Read Previous

Número de idosos no mercado de trabalho diminui em Goiás

Read Next

Centro de Recuperação de Alcoólatras promove inclusão social