Por Guilherme Alvarince Marquez

Acordei em um dia como qualquer outro, era 9 de agosto, ainda havia muito medo do momento histórico em que vivíamos, mas não tínhamos escolha, peguei meu carro, o trânsito, como sempre estava um caos, deixei meu filho na escola e fui pro trabalho. Quando eu era novo, sonhava em ser pintor, naquela época tinha a imaginação fértil e pelo menos achava ter algum talento especial, mas nunca passou pela minha mente trabalhar em um escritório de contabilidade, passar o dia fazendo planilhas, carimbando documento e recebendo ordens não era meu forte, mas era o que pagava as contas. Cheguei no trabalho às 7, numa manhã fria e cinza, dava pra ver o medo em cada olhar, o peso dos milhares de mortos nos dias anteriores era visível, ninguém falava nada, só se ouvia o som dos carimbos e das canetas, às vezes um cochicho, às vezes o estagiário passando com o carrinho de correspondência, o silêncio era dominante, vários colegas tinham perdido amigos e familiares alguns dias atrás, mas o trabalho não podia parar. O Sr. Shotaro, nosso chefe, deu folga para aqueles que estavam de luto, até porque ele também estava, mas a maioria foi ao escritório mesmo assim, estavam todos tentando se ocupar de alguma forma. Na hora do café apenas Amy falou, perguntou quem queria café, meia dúzia levantou a mão, alguns olharam e balançaram a cabeça dizendo que não e outros nem parecem ter escutado, as olheiras eram visíveis em todos ali, o medo gritava à noite, ninguém dormia direito há dias.

Depois do intervalo, o Sr. Shotaro chamou todos pra sala de reunião, disse com sua voz forte, mas um pouco fragilizada “Sei o que estão passando, também estou, não dá pra esconder. Vão pra casa, estão todos liberados, não tem porque continuarmos por hoje”. Todos pegaram suas coisas e saíram em silêncio. Passei na escola do meu filho, busquei ele mais cedo, levei ele pra comer panquecas, ele adorava; também busquei minha mulher em casa, fomos andar no parque juntos. Vimos um pequeno pássaro azul numa árvore, ali do lado de seu ninho, os olhos do do meu filho brilhavam pelo encanto e os da minha mulher se encharcaram de emoção, então nos abraçamos. Ao olhar pra cima vi um pássaro no céu, voando rápido mas sem mover suas asas, ele era escuro e estranho, naquele momento o som das sirenes começou e todos começaram a correr, não era um pássaro, era o que todos temiam: Hiroshima não foi o suficiente para os americanos. Começamos a correr para o bunker mais próximo, mas não deu tempo, vimos a ogiva se aproximar e já não havia dúvida, nos abraçamos mais uma vez, o silêncio havia sido substituído por gritos de desespero, o coro de medo e de terror, mesmo com os olhos fechados, senti um clarão imenso, como se o sol estivesse do meu lado, senti um calor que me queimava por dentro e quando abri meus olhos eu vi apenas fogo, e então mais nada.

Ana Maria - UniAraguaia

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