Redação: Mabel Quinones Arboleda

Edição: Ana Maria Morais

A recuperação da covid não é necessariamente o fim da doença, mas, sim, o início de uma nova luta. Um estudo feito no King’s College de Londres relata que, meses após sair do hospital, cerca de 60% dos pacientes ainda sentem fadiga, 40-50% têm falta de ar e 34% têm tosse seca. Tudo isso após o organismo estar livre do vírus. Isso demonstra que, depois que a pessoa tiver o vírus, se conseguir se recuperar, pode sofrer com os sintomas e ainda não fica imune à doença.

No mundo, mais de 53 milhões de pessoas já se recuperaram da covid; no Brasil já temos mais de 7 milhões de recuperados, mas essa recuperação não significa que essas pessoas voltaram a desfrutar de mesma saúde de antes da infecção; as sequelas não acometem somente as pessoas idosas com comorbidades, qualquer pessoa que se infectou pode desenvolver algum tipo de sequela, até mesmo as pessoas jovens, assintomáticas e com ótima saúde

As pessoas que não precisaram de internação relatam episódios de sintomas duradouros, como cansaço, dores musculares dor no corpo, dor de cabeça, fraqueza. Tudo isso acontece não somente pelo fato de a pessoa ter sido infectada, mas sim pelos efeitos secundários que o vírus deixa no organismo, já que algumas semanas após a infecção ele não está no corpo mais. Por exemplo, a inflamação generalizada que ele provoca estimula alterações sanguíneas que favorecem eventos de trombose; pelo fato de ele causar alterações diretas e indiretas em muitos órgãos, a infecção pelo coronavírus gera alterações no organismo, incluindo o desequilíbrio de minerais e água no corpo, o acúmulo de substâncias tóxicas e alterações hormonais, que contribuem para essa sensação de mal estar, fraqueza e dor de cabeça. E ainda não se sabe por quanto tempo essas alterações podem durar.

José Osmar de Morais, vendedor e pastor, 53 anos, foi diagnosticado com covid no dia 20 de julho após ter apresentado alguns dos sintomas mais comuns, como nariz entupido, dor de cabeça, fraqueza e falta de ar; ele conta que possivelmente se contaminou no trabalho como vendedor. José Osmar tem fatores determinantes para que a doença evoluísse de forma grave: além da idade, tem a pressão arterial alta e está acima do peso. Uma semana após o início dos sintomas fez uma tomografia, que revelou um extenso comprometimento pulmonar, e deu início ao tratamento. Ele foi internado no hospital de campanha Célia Câmara, onde passou 35 dias na UTI e 9 dias na enfermaria e foi submetido a duas entubações e, por último, precisou fazer uma traqueostomia.

Com o passar dos dias, foi apresentando melhoras e foi transferido para a enfermaria, onde começou a sofrer convulsões e a fazer movimentos involuntários com a perna esquerda por conta da fraqueza. Além disso, estava com escaras (feridas de pele comuns em pessoas acamadas) nos glúteos, duas grandes e uma pequena.  

Após a alta hospitalar, no dia 9 de setembro, começava a peregrinação por médicos de várias especialidades. José Osmar continuou sofrendo com as escaras e com o orifício da traqueostomia, dos quais saía pus continuamente, mesmo com os curativos diários. Cerca de 20 dias após a alta, foi a um infectologista – conforme indicação de uma dermatologista consultada dias antes – e descobriu que as escaras estavam com bactéria intrahospitalar, necessitando de uma nova dose de antibióticos, substância que fez parte do tratamento durante todo o período de internação.

No início de outubro, sua esposa, Sônia Mara Ribeiro de Morais, ao fazer um curativo, notou que havia algo além de pus no orifício da traqueostomia: um fiapo. Levado ao Hugol, descobriu-se que tratava-se de uma gaze esquecida pela equipe do Hospital de Campanha Célia Câmara. Ele ressalta que o atendimento no hospital foi bom, mas a demanda era muito grande e os enfermeiros tinham que se desdobrar para poder dar conta do serviço.

Retirada a gaze, José Osmar relata que pensava que o pior havia ficado para trás. Entretanto, ele continuava sentindo muita falta de ar. Em consulta a uma pneumologista, ela lhe disse que os pulmões haviam ficado com sequelas, mas que era possível recuperá-los por meio de fisioterapia e exercícios físicos. Assim ele o fez. Mas a falta de ar continuava e começou a engasgar com alimentos sólidos. “No final de dezembro, a falta de ar piorou e fui engasgando cada vez mais. Eu voltei a um pneumologista logo após o Natal, que disse que os pulmões tinham recuperado quase totalmente, que a saturação estava ótima e que era preciso consultar um otorrino”, conta.

No otorrinolaringologista foi feita uma laringoscopia que diagnosticou um nódulo na traqueia, que obstruía mais de 50% de sua respiração. Internado no dia 29 de dezembro, foi operado no dia 2 de janeiro no Hospital Municipal de Aparecida de Goiânia, do qual destaca o tratamento de excelência. Não foi nenhuma surpresa descobrir que a obstrução era causada por mais uma gaze, que, conforme o médico cirurgião, por pouco não lhe causou asfixia total.     

Como já foi dito, a covid não deixa só sequelas físicas: ela danifica a saúde mental e emocional das pessoas. Para José não foi diferente. Quatro meses após a saída do Hospital de Campanha Célia Câmara, ainda sente fraqueza repentina, esquecimentos e dores de cabeça. E ainda tem as escaras, que ainda não cicatrizaram e para as quais foi prescrito uma nova sessão de antibióticos. No entanto, a vida lhe foi poupada e é por ela que ele luta diariamente, com o auxílio de sua família, conforme conta na entrevista a seguir.   

José Osmar de Morais no dia da alta hospitalar, após 44 dias de internação, 35 deles na UTI

Qual foi o maior aprendizado que ficou para você de tudo que aconteceu?

A gente precisa cuidar do condicionamento físico. Às vezes, por conta da correria, descuida da alimentação e o corpo da gente não aguenta.  De dia eu trabalho numa empresa de tintas e de noite na igreja, e às vezes se esquece de cuidar de si próprio.

Você acha que a sociedade oferece atenção e importância que a covid precisa?

Eu acho que não; as pessoas não têm noção, só sofrimento que a doença causa e do quanto é sério porque é uma doença que os médicos não têm um tratamento específico para poder ser tratado e a vacina vai demorar a chegar para toda a população.

Fale um pouco sobre o papel de sua família e principalmente da sua esposa.

Mesmo sem ter formação na área, minha esposa cuido muito bem de mim e os médicos têm dito que isso me ajudou muito. Na parte financeira minha família me brindou com um suporte para comprar medicamentos, meus pais, meus irmãos e meus filhos e minha esposa cuidam muito bem de mim.

O médico intensivista Ricardo Dantas de Souza antes de ser contaminado pelo coronavírus

A batalha de um médico intensivista

Ricardo Dantas de Sousa, médico intensivista de 48 anos, logo no início da pandemia trabalhou na linha de frente no Hugol e foi infectado pelo coronavírus. Quem narra a luta de Ricardo contra a doença é sua esposa, Viviane Dantas. Segundo ela, o marido fez isolamento social durante 13 dias e após esse período veio a falta de ar muito intensa, quando decidiu buscar ajuda no pronto-socorro do próprio Hugol. Ficou internado fazendo uso de cateter de alto fluxo e máscara, durante cinco dias, sem apresentar melhoras. Assim, foi realizada a entubação, na qual permaneceu por 11 dias, sendo feita, em seguida, uma traqueostomia. Quando a equipe começou a diminuir a sedação, percebeu que o lado esquerdo do seu corpo não movimentava, foi realizada uma tomografia que constatou que ele teve um AVC isquêmico do lado direito que prejudicou o lado esquerdo. Após 28 dias na UTI, apresentou melhoras e foi para o apartamento do hospital. Depois de quatro dias, apresentou uma forte dor de cabeça que nem a morfina resolvia. Fez uma segunda tomografia que constatou que o AVC isquêmico tinha se tornado hemorrágico e como consequência o lado esquerdo do corpo ficou totalmente paralisado.

Ricardo ganhou alta hospitalar com o lado esquerdo paralisado e o direito movimentando pouco, devido ao tratamento dentro da UTI. Em casa começaram os cuidados com o fisioterapeuta; mas ainda com as sequelas que a covid deixou: muita dor de cabeça, raciocínio lento, esquecimento das coisas e apresentando muita dificuldade para realizar funções básicas do cotidiano, como assistir um vídeo no celular, assistir TV.

Ricardo Dantas com a equipe de saúde que cuidou dele

Viviane comenta que foram momentos muito difficiles para ela, pois desde que começou a pandemia já sabia sobre o risco de contaminação mas não sabia de todos os danos que o vírus poderia causar na saúde do marido. Ela se diz indignada com a situação dos profissionais da área da saúde, pela falta de apoio e de consideração do governo e de algumas empresas. Segundo ela, o marido é concursado da Secretaria Estadual de Saúde, mas também trabalha sem garantias trabalhistas para alguns hospitais, e que eles não prestaram o suporte necessário, assim como não teve auxílio do governo.

“Os profissionais têm sido muito aplaudidos, mas era necessário fazer muito mais por eles, pois muitos deles perderam a vida, deixaram filhos, esposas… e não deram suporte para a família, são todos deixados de lado”, critica Viviane. “É muito difícil ver uma pessoa que sempre foi completamente ativa que sempre trabalhou o tempo inteiro e de repente fica em uma situação dessas. Meu marido era o provedor do nosso lar, era a base de tudo, e de repente cadê essa base? Da noite para o dia tive que me tornar a pessoa que resolvia tudo, a esposa; o pai, tive que ser a provedora da nossa casa. Mas também é muito bom ver a melhora dele, a recuperação, o passo a passo que ele dá. Cada dia ele sobe um degrau, há uma melhora. Isso me deixa feliz, às vezes parece muito pequeno, mas para gente é muito grande”, conclui.

Ricardo durante sessão de fisioterapia para a recuperação das sequelas do AVC sofrido durante a internação

Ana Maria - UniAraguaia

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