“O vídeogame sempre esteve em minha vida, muito mais que apenas uma distração, ser apaixonada por jogos é o mesmo que viver a vida daquele personagem que está ali na telinha. É inventar estórias dentro da história do jogo. É se emocionar rir e principalmente se divertir.”

LEOMAR SILVESTRE E MÁRCIO SOUZA

Bárbara França jogando No Man’s Sky. Foto: Leomar Silvestre.

Em algum lugar do Brooklym em 1985, dois encanadores gêmeos chamados Mario e Luigi foram à casa de uma senhora. Enquanto faziam o seu trabalho, os dois irmãos descobriram uma passagem secreta e pararam no reino dos cogumelos. O que poderia ser uma única e simples aventura resultou em mais de 40 milhões de cópias, sem contar as cômicas de “indetectáveis” imitações. Mas, esse foi o começo do Mario, a sua história na vida das pessoas tem um recomeço diário, realizando até mesmo uma união de gerações.

“1-up significa renovação, uma chance de fazer melhor ou pelo menos tentar”. A moça da foto e autora dessa frase é a estudante Bárbara França, futura jornalista apaixonada em Super Mario Bros. Curioso? Então, vamos começar. Nasce em 16 de outubro de 1994 uma garota destinada a quebrar paradigmas sociais, não que ela se importe. Essa não é uma daquelas histórias emocionantes de superação pessoal, portanto controle suas lágrimas. “Eu nunca senti que precisasse ter um lugar fixo no mundo, prefiro fazer tudo que me agrade”.

Nasceu e viveu boa parte de sua vida na capital do país, lugar esse que deu origem a sua ausência de sotaque goiano, sua voz é bem grossa e marcante. Quando criança adorava brincar com jogos de quebra cabeça, mesmo não tendo paciência para concluir todos. Brincar, correr e pular nunca foram a sua praia: “Sempre preferi dançar” diz sorrindo.

Menina falante, extrovertida e curiosa, Bárbara começou a gostar mesmo de games a partir dos oito anos de idade. Ela se lembra que tudo começou em um sábado, quando seu pai a levou de carro até a casa de seus amigos. Chegando na casa, seus amigos estavam na sala, cada um com um controle nas mãos. A jovem, confusa, ficou olhando aqueles meninos manusearem uma alavanca e apertando os botões sem parar. Na tela de 14 polegadas havia dois personagens lutando. Os meninos vibravam a cada golpe. Tudo era estranho e empolgante. Quando ela notou já estava disputando e vibrando com os amigos. Mas, como não dominava o controle, acabou perdendo o jogo. Alguns minutos com os olhos atentos na TV, foram suficientes para a menina se apaixonar. “Naquele mesmo dia pedi ao meu pai um videogame, e que me levasse sempre para jogar com meus amigos.”

 

Com treze anos, pela primeira vez jogou no fliperama. Era nada mais, nada menos que pinball. Paixão à primeira vista. Com quatorze anos ganhou seu primeiro Famiclone. E logo se encantou. “O vídeogame era um daqueles clones de Nintendinho que eu jogava em uma TV que minha mãe ganhou de um vizinho, meio estragada. Ela não podia instalar na TV colorida da sala, pois alguém disse que vídeogame estraga a TV”.

Após isso, veio o Super Nintendo. Depois, o PlayStation. Barbara ficou muito viciada. Seus pais a proibiram de jogar por um período, já que suas notas do colégio estavam caindo. Uma de suas características –  mais amadas e odiadas – é a espontaneidade. Mas essa forma de viver não é sinônimo de desrespeito. Nas férias daquele mesmo ano, ela chamou seus amigos de infância para fazer maratona em vários jogos. Resident Evil sem dúvida foi um dos jogos que mais gostou.

Com quinze anos, Barbara foi trabalhar em uma lan house perto da sua casa. “Nesse primeiro emprego, que aceitei por gostar de computadores, eu aprendi a lidar com pessoas e a dar valor no dinheiro. Acompanhei o mundo dos games a distância. Por mais que goste, o tempo e os objetivos já não eram os mesmos”.

Com dezoito anos, fez sua primeira tatuagem. Pensando em games, decidiu tatuar um cogumelo do Super Mário, no braço direito. Era uma quarta-feira, mais ou menos três e quinze da tarde.

Braço direito tatuado no estilo “tinta jogada”. Foto: Márcio Souza.

Para facilitar, levou no celular alguns desenhos do cogumelo como inspiração e tirou algumas dúvidas básicas. A sessão foi marcada para o dia seguinte e logo pela manhã foi com uma amiga e um primo até o tatuador. O dia amanheceu nublado. Caminharam cerca de quatro quarteirões até chegar ao local combinado.

Depois de duas horas, a tão desejada tatuagem já estava pronta. O processo foi tranquilo, doeu bem menos do que imaginava. “Gostei muito do resultado”, disse com o sorriso de orelha a orelha. Bárbara sempre teve vontade de fazer uma tatuagem e achou que esse era o momento certo já que em breve muita coisa iria mudar em sua vida.

O ensino médio havia acabado e estava mais do que na hora de começar a vida na faculdade e um novo trabalho. Era, realmente, isso que a tatuagem representava: liberdade e não importava o que acontecesse, estaria sempre livre para tomar novas decisões, e deixar o que não te fazia bem no passado.

Bem comunicativa, Bárbara tinha em mente cursar Direito ou Jornalismo. Preferiu a primeira opção. Matriculou-se e aguardou o tão esperado dia das aulas começarem. No seu primeiro dia, ansiosa, ela trocou de roupa pelo menos umas três vezes antes de sair de casa. Primeiro, vestiu uma saia longa e florida, combinando com a bota caramelo, mas logo pensou que estava muito cafona. Trocou de peça. Decidiu tentar um estilo mais social, mas ficou muito séria. Para piorar, a camisa que combinava com o sapato estava sem botão. Sem condições. Trocou novamente. Tentou mais algumas combinações e, finalmente, decidiu usar uma sainha preta com listras brancas, “comportadinha, na altura do joelho”, camisa branca e sapato clássico. Também prendeu o cabelo com um rabo-de-cavalo baixo, bem grudado na cabeça, repartido ao meio. Depois da maquiagem discreta, os óculos de armação moderna vieram completar o visual.

Enfim na faculdade. Chegou em sala, confusa com o novo ambiente, ficou retraída, no seu canto. Aparentemente, ninguém curtia passar algumas horinhas jogando vídeogame. Também pudera, julgar as pessoas como se fossem jogadoras de games. Todos na sala ficavam concentrados, não olhavam para os lados, talvez por ser o primeiro dia de aula. Calouros sendo calouros. “

Já no primeiro semestre do curso, eu via o pessoal de Jornalismo. Via o laboratório, eles gravando lá na porta e fui ficando doida, me vendo fazendo o curso, com vontade mesmo. Um dia eu falei para o meu pai que não estava feliz no Direito e que ia fazer Jornalismo já que tinha habilidade com a escrita. Gosto pela Língua Portuguesa, a emoção de fazer sempre o diferente, saindo do ponto de conforto me conquistou”.

E pouco tempo depois, Bárbara começou a cursar Jornalismo, na Faculdade Araguaia. História da Imprensa foi sua primeira disciplina, o primeiro contato com a faculdade de comunicação. Fez amizades, conheceu pessoas que gostavam de games e, arranjou um namorado. Tudo estava dando certo na vida da jovem. Não demorou muito, já estava fazendo estágio. Também se matriculou em um curso de Zumba. Mesmo com a correria do dia a dia, nunca abandou o vídeogame, sempre marca batalhas com os amigos. Afinal de contas, ela encara os games como um esporte, mesmo não sendo oficializado, mas que sempre faz parte da sua vida desde a infância.

Como sua história ainda está sendo escrita, não existe um fim para esse texto, mas sim um: Continua…

Araguaia Online - Equipe

Read Previous

O sonho de uma adolescente lutadora de taekwondo

Read Next

O esquerdinha – marrento, moleque e muito bom de bola