Estudante indígena fala sobre dificuldades vivenciadas por seu povo durante a pandemia de covid-19

Redação: Camila Nogueira e Ronaldo Antônio

Edição: Ana Maria Morais

A pandemia do novo coronavírus evidenciou os problemas enfrentados por milhares de estudantes brasileiros, entre os quais se inclui a maioria dos indígenas. De acordo com Vanessa Hãtxu de Moura Karajá, de 26 anos, graduada em Pedagogia na Universidade Federal de Goiás e mestranda em Letras na Universidade Federal de Tocantins, os povos indígenas do país têm passado por dificuldades por falta de condições para acessar as aulas, já que a maioria não tem computador e internet.

“Minha história é parecida com a de muitos jovens indígenas, sou a primeira da família a ingressar e concluir um curso de ensino superior. Sou mulher indígena, mãe, lutar por nossos direitos faz parte da minha realidade”, contou Vanessa. Segundo ela, durante a formação acadêmica os nativos sofrem preconceito e racismo institucional.

Vanessa Karajá formou-se em Pedagogia pela UFG

Assim como a saúde entrou em colapso com a Covid-19, o ensino público evidenciou a falta de investimento com a área da educação. Desse modo, os estudantes precisaram tomar iniciativas para conseguir continuar os estudos e se formarem.

A mestranda explica que em relação aos estudantes indígenas nas universidades, alguns Institutos de Ensino Superior “realizaram projetos de inclusão digital, fornecendo chips, auxílios financeiros para pagamentos de internet e empréstimos de celulares e notebook”. No entanto, ela afirma que não são todos os discentes que têm a mesma oportunidade de acesso à internet e apoio das instituições de ensino superior.

Para conseguir estudar, os indígenas, assim como muitos brasileiros de cidades pequenas, saem de seus lares e se deslocam para os grandes centros em busca de melhores condições e dignidade no âmbito escolar. Embora a vida fique ainda mais complicada por falta de incentivo financeiro e auxílio para conseguir sobreviver em outro lugar, eles não medem esforços.

Porém, com a pandemia, muitos nativos voltaram para suas aldeias, para continuar estudando a distância, mesmo sem internet de fácil acesso. Outro obstáculo para eles é o alto valor de mensalidade da rede, o que atrapalha no momento de continuarem a vida acadêmica.

Vanessa diz que a pandemia deixou os estudantes indígenas e suas famílias preocupados, porque é difícil manter os estudos a distância tendo poucos recursos. “Logo no início da pandemia voltei para minha aldeia, assim como muitos outros estudantes. Ficamos ansiosos e preocupados, pois muitas aldeias são distantes de centros urbanos. Na minha comunidade não tinha acesso à internet, fiquei preocupada e tive que tomar providências sobre essa situação. Particularmente, consegui instalar internet rural via satélite, mas o custo da fatura é de quase R$ 300”, reclamou a mestranda.

“Nossa luta não começou ontem, e sim há 521 anos. Invadiram nossos territórios ancestrais, agora estamos nos capacitando formalmente, digo isso porque, às vezes, consideram como capazes apenas aqueles que têm diploma acadêmico. Nossos direitos estão escritos na Constituição Federal de 1988, direito à terra, saúde e educação de qualidade, mas esses direitos não estão sendo efetivados na prática, por isso lutamos, queremos paz e dignidade, é pedir muito Tori [homem branco]?”, completou.

Os povos nativos suportam numerosas ações de descaso por parte do governo e da sociedade, desde a invasão dos portugueses a dignidade foi atingida, e a falta de interesse em ajudar os povos indígenas do nosso país comprova a desigualdade histórica.

Ana Maria - UniAraguaia

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