Propondo mudanças e gerando transtornos

LEOMAR SILVESTRE

Recentemente tivemos eleições municipais em todo o País, elegendo novos prefeitos e vereadores. Todos os candidatos, como já é de costume, demonstram inteira preocupação e se dispõem a lutar pela saúde, educação e meio ambiente. Isso mesmo, meio ambiente. Será que para obter votos é realmente necessário lotar as ruas de propaganda? Nessa matéria, mostrando o ponto de vista de três estudantes que estão em etapas diferentes da vida: Ensino médio, curso pré-vestibular e graduação.

Charge: André Santos.

De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral, em Goiânia temos 957.161 mil eleitores ativos e haverá segundo turno para a eleição de prefeito. A importância das eleições diretas é indiscutível, foi um direito conquistado e permite que cada cidadão possa fazer parte da mudança que deseja. E é justamente esse poder de mudança que vou mostrar para você. Então, vamos refletir, como você considera a forma de política vigente?

Luiza Seeman, 17, estudante de curso pré-vestibular para medicina: “Creio eu que a forma política atual tem muita divulgação somente em prol do candidato, mais como forma de propaganda do que qualquer coisa. Existe uma grande manipulação de dados para divulgar o que possa beneficiar ou prejudicar certo político. Ainda falta uma mídia mais desaparelhada do Estado, comprometida realmente com a divulgação de verdade do que apenas propor sua ideologia”.

Pedro Victor, 17, fazendo o último ano do ensino médio: “A forma de fazer política atualmente ainda é muito arcaica e sem qualquer revisão ou aprofundamento, normalmente são promessas em que o divulgador não possui autoridade para executar!  As campanhas são muito genéricas, pois é comum ver o mesmo discurso em lugares totalmente diferentes”.

Luana Rosa, 28, cursando graduação em jornalismo: “A divulgação da campanha é perfeita. Muito marketing, utilizam de áudio, carros de som, TV, rádio, mas seria bom se eles quando eleitos cumprissem o que dizem. Todos sabemos que nem a metade dos políticos cumpre suas promessas”.

Esses são pontos de vista diferentes, mas provavelmente se assemelham aos de grande parte da população. O Código Eleitoral vigente, através da Lei 12.034 estabelece restrições à propaganda política, não admitindo mensagens que incitem a guerra, atentados, desobediência civil, ofertas ou promessas de dinheiro ou vantagens, inclusive sorteios. Mas, a fiscalização dessas restrições não é sempre feita por completo, em partes cabe à população, indiretamente, se conscientizar e lutar por seus direitos.

A mesma lei citada, que foi alterada em 2009 diz que com o objetivo de diminuir a poluição visual e ter maior cuidado com o meio ambiente, o que antes era permitido com a colocação de cartazes, placas, estandartes e faixas ou assemelhados em postes, viadutos, passarelas, paradas de ônibus, pontes e outros equipamentos urbanos, hoje está proibido. Mesmo que tais propagandas sejam removíveis e não causem dano, dificultem ou impeçam o bom andamento do tráfego. Nestes casos, a multa varia de R$ 2 mil a R$ 8 mil, se o bem não for restaurado após a notificação da Justiça Eleitoral. A política feita atualmente causa algum dano ambiental?

Luana Rosa: “Sim. Tanto na poluição sonora quanto na divulgação impressa, com jornais e panfletos. Geralmente um dia antes das eleições, eles espalham esse material nas ruas de forma totalmente incorreta”.

Luiza Seeman: “Não é o principal problema, mas a falta de consciência e responsabilidade ambiental colabora com ela.  Com tantos santinhos distribuídos, as pessoas acabam descartando na rua e sujando a cidade, o que pode provocar outros problemas, como o entupimento de bueiros e as consequentes enchentes. Além de prejudicar a estética da cidade”.

Pedro Victor (17 anos, fazendo o último ano do ensino médio): Sem dúvidas, principalmente no dia eleitoral onde as ruas são infestadas de santinhos e panfletos. Sem contar que o uso de papel ainda é intenso em ano eleitoral.

O nome santinho aparentemente vem de uma prática relacionada à Igreja Católica. Antigamente os padres distribuíam pequenos papeis com imagens coloridas de santos, que eram chamados, na época, de “Santinho”. Até aí sem problemas, mas a poluição é gerada pela quantidade exacerbada de santinhos. Um exemplo; se a cidade tem cem mil habitantes, não é necessário ter duzentos mil santinhos. Esse excedente é feito para justamente despejar nas ruas e fazer “boca de urna” indireta.

Mas essas atitudes não devem acabar com seu conceito positivo sobre a política. Nosso país é democrático, logo, precisamos dela para adquirir melhorias de vida. Quem você elege deve te representar nos mais diversos níveis de poder existentes, tudo depende literalmente do seu voto. Após vencer uma eleição, a pessoa que ocupa o cargo se torna um servidor público. Devendo prestações de contas para toda a população. Então, na sua opinião, qual a importância da política para a sociedade? Ela cumpre o seu papel na realidade ou apenas na teoria?

Pedro Victor: “A política brasileira teria tudo pra dar certo se a base teórica fosse respeitada, infelizmente não podemos culpar os cidadãos pela má educação política, mas sim tentar meios cabíveis para promover um ensinamento melhor do exercício da política”.

Luiza Seeman: “A política tem um grande peso para a sociedade. Por meio dela que temos nossa representatividade e a de nossos interesses, coletivos e individuais, no cenário nacional, estadual e municipal. Na situação atual do Brasil, o papel central é cumprido, mas não da forma ideal. Existem muitos cidadãos, se podemos chamá-los assim, que não dão valor ao seu direito e dever, que elege ou não e tem o poder de tirar e colocar quem for o melhor”.

Luana Rosa: “O papel dos políticos seria administrar a vida pública, representar o cidadão e trabalhar pela melhoria e o bem-estar da comunidade. Não, eles não cumprem o dever que lhes é confiado”.

Para concorrer a um cargo público é necessário atender aos atributos mínimos exigidos pela Constituição Federal, conforme especificado no vídeo. Mas, para ser um bom governante é preciso de muito mais. Um governante deve ter noções consideráveis de administração pública e uso das verbas arrecadadas. Precisa manter contato direto com todas as parcelas da população, inclusive aqueles que não o elegeram, para atender as suas necessidades. E também receber aqueles que precisam. A política é mais que uma série de acordos almejando fins próprios, essa mudança começa com seu voto. Quais as características fundamentais para um bom governante? Você considera que votou corretamente?

Luiza Seeman: “Um bom governante, a meu ver, deve ser bem instruído, com o mínimo de honestidade que não permita ser facilmente corrompido, cumprir ao máximo suas promessas de campanha e saber liderar, gerenciar e coordenar alianças que favorecem aprovar projetos mais rapidamente e facilitem seu governo. Apesar de já ter 17 anos, escolhi não fazer título de eleitor para essas eleições municipais. Minha cidade [Palmeiras de Goiás] é muito polarizada e prefiro evitar um cenário que pode gerar represálias violentas”.

Pedro Victor (17 anos, fazendo o último ano do ensino médio): Acho que a principal característica de um governante deve ser a racionalidade, para que ele trabalhe de acordo com as leis e não com sua vontade própria. Ele deve conhecer os problemas do sistema, e ser capaz de resolvê-los ou minimizá-los, afinal é o cargo que ele deverá exercer. A ideia que ele deve ter em mente e que ele trabalha para o povo. Não sei se votei certo, mas confiei nas promessas de meu candidato e estou pleno de que se ele não as realizasse poderia recorrer ao judiciário”.

Luana Rosa: “Bons governantes seriam aqueles que tivessem seus interesses voltados para o bem de todos e não somente dele. Eles não deveriam roubar, se corromper, mentir. Deveriam ser exemplos para todos. Infelizmente não é esse exemplo que temos dos políticos no nosso país. Nestas eleições votei em um candidato que considerei ter as melhores propostas. Para vereador, votei em quem já conhecia o trabalho, ficha limpa e que realmente trabalha a favor de todos”.

Com essa leitura, diversas questões foram levantadas em sua mente, provavelmente reflexões próprias e julgamentos de valor social. Tenha consigo que, desde o início dos tempos nossa sociedade evoluiu com pequenas ideias que se tornaram grandes mudanças. Esse assunto já foi abordado de tantas formas que até pode parecer clichê. Mas, acredito que só podemos parar de discutir um problema depois que ele foi totalmente resolvido. Busque em seus pensamentos se ele realmente foi. Espero que as opiniões e fatos abordados aqui tenham feito você sair da sua “zona de conforto”, pois nada de bom acontece quando se está nela.

Cultura ocupa o centro de Goiânia

Prédios e espaços públicos de Goiânia tem se tornado lugares para intervenções artísticas e culturais

NATANAEL GONÇALVES DIAS

Mais uma vez o “Grande Hotel” é ocupado no domingo com uma intervenção cultural. Dessa vez o evento “Dropei – criança viada” foi direcionado ao público LGBT e população em geral. A inspiração do evento foi o dia das crianças, devido à proximidade dessa data. O objetivo foi de promover entretenimento gratuito ou de baixo custo para a população.

O prédio no estilo Art Déco construído na década de 1930 em plena avenida Goiás no centro de Goiânia que a princípio foi o “Grande Hotel”, impressiona pela beleza e simplicidade.  O local foi considerado um dos mais importantes daquela época, já que reuniões de negócios eram realizadas no local e pessoas mais influentes que vinham a Goiânia se hospedavam. O hotel tem o título de Patrimônio Histórico de Goiânia, desde 18 de novembro de 2003. Atualmente, funciona no prédio um centro cultural.

O Edifício tem se tornado, cada vez mais, palco de intervenções como atos políticos, eventos artísticos e culturais. O projeto tem o intuito de levar música eletrônica, funk, música pop e diversão de forma mais acessível para a população.

“Um evento cultural de rua abrange muitas pessoas que não tem condição e com isso estamos dando oportunidade para quem não pode pagar para ir a uma boate”

Evento “Dropei – Criança viada” no pátio do Grande Hotel. Foto: Natanael Gonçalves Dias.

Em uma pacata e quente tarde de domingo, um evento que faz parte desse projeto reuniu pessoas das mais variadas tribos, estilos e contou com a presença de DJs tocando música pop, funk e eletrônica. A estudante, Natália Costa, 19, foi uma das participantes e defende o projeto “Eu acho além de legal, muito importante. Porque ajuda a disseminar a arte e cultura que nós temos aqui em Goiânia”.

O promoter Ítalo Dorotheo, 20, destaca a importância dos eventos gratuitos e mais acessíveis para a população “Aqui é um evento feito para o povo, é um evento aberto, não tem valor fixo e cada um contribui com aquilo que pode. A nossa inspiração é a galera”.

A DJ e organizadora do evento, Barbara Novais, 24, reivindica ao prefeito de Goiânia projetos na área da cultura.  “Eu espero que ele invista mais e faça mais vista grossa para reclamações pequenas como o barulho. Um evento cultural de rua abrange muitas pessoas que não tem condição e com isso estamos dando oportunidade para quem não pode pagar para ir a uma boate” ressalta.

Portadora de deficiência encontra no vôlei a chance de mudar de vida

Maranhense integra a equipe de vôlei sentado em Goiânia e chega a paraolimpíadas.

ANA CAROLINE SOUZA

Pâmela Pereira nasceu em Balsas no Maranhão. Veio pra Goiânia em 2011 com 25 anos. Faz dois anos que ela  sofreu um acidente de moto e perdeu parte da perna esquerda. Pâmela viu no esporte a chance de dar a volta por cima, no início ela diz que foi difícil, doloroso, por ser um esporte que joga sentado.

Com o esporte ela diz que a oportunidade de não entrar na depressão, e ao invés de lamentar ela iria somente agradecer por não ter morrido. Pâmela diz ter recebido o convite para jogar vôlei quando estava em um supermercado.

Casada com um filho, ela fala da batalha do dia a dia no esporte.” Não é fácil, o vôlei exige bastante de mim, treino quatro vezes por semana, cada treino dura aproximadamente três horas. Tenho que treinar bastante, mesmo com a falta de bolsa atleta que deveria receber do governo, eu não desisto.”

Pâmela está sem receber a bolsa atleta, segundo ela, o governo alega que uma vez que ela é “encostada” pelo INSS, ela não tem direito a bolsa.  Ela acaba de chegar do Rio de Janeiro foi convocada para as paraolimpíadas, onde conseguiu a medalha de bronze.

Animada e feliz com a medalha do Rio de Janeiro ela faz um convite aos portadores de deficiência física, o time de vôlei está precisando de mais atleta. “Você que é portador de deficiência, venha jogar com a gente, descobri um mundo novo, descobrir coisas novas se motivarem, quero passar para todos a experiência de ter participado e conquistado essa medalha no Rio.

Paisagem Sonora – Sedazil

Apenas sons do cotidiano e de aparelhos eletrônicos são utilizados neste Jingle que anuncia um produto capaz de aliviar a tensão do dia-a-dia. Um exercício sobre paisagem sonora realizado por estudantes do segundo período de Publicidade e Propaganda e de Jornalismo da Faculdade Araguaia. O produto anunciado é fictício. A produção é de Anna Carolina do Amaral e Matheus Gundim,  sob a supervisão do Professor Gildésio Bomfim. Ouça no link abaixo:

 

https://soundcloud.com/radiojornalismo-919344972/paisagem-sonora-sedazil

 

Ofício em jogo

NATANAEL GONÇALVES

A profissão de árbitro de futebol, tem a finalidade de marcar gols feitos pelo time opositor e, claro, sendo aquele com mais gols o vitorioso. Pode atuar, também, como juiz que anuncia com o apito o início e o final de uma partida. Faz o cumprimento das regras esportivas como, cobrança de faltas, pênaltis, expulsões, escanteios e outros. A participação do árbitro é indispensável, já que sem ela o jogo não começa.

Francisco de Assis que prefere ser chamado de “Tito”, 39 anos, casado, padrasto de dois enteados e pai de uma garota de 13 anos, tem pouco mais de 1,70 m de altura e por volta de 80 kg. Natural de São Miguel do Tocantins – TO, foi tentar a vida ainda jovem na cidade de Gurupi – TO, lá jogou futebol de campo e futebol de salão com alguns campeonatos vencidos ao longo de sua carreira e, também, foi o lugar onde começou a apitar jogos e conheceu sua esposa Oneide com quem é casado há 17 anos.

Francisco de Assis se divide entre a profissão de árbitro de futebol, microempresário e sapateiro.

Mas, para quem sonha em exercer a profissão de árbitro é preciso muito mais do que gostar de futebol. Já que, além do bom preparo físico, bom senso, moralidade, honestidade, muita paciência, autoridade, capacidade, conhecimento das regras do jogo, imparcialidade e capacidade de liderança são fundamentais.

Apesar de tocar uma pequena distribuidora de bebidas e ainda trabalhar como sapateiro. Francisco atua como árbitro amador há mais de 15 anos e tem no ofício uma paixão na sua vida. Quando chamado dificilmente recusa os bicos para apitar jogos que normalmente ocorrem nos finais de semana e feriados. Na pequena e simples sapataria onde trabalha, em meio a vários sapatos e malas para consertar. Francisco relata o início de sua carreira nos campos “ Por influência de amigos. Amigos meus que trabalhavam na empresa comigo. E aí eles foram me incentivando. Aí eu fiz o curso e gostei do trabalho e até agora estou nesse ramo”.

A esposa Oneide, mesmo concentrada em seu trabalho de dona de casa, se sente preocupada com o marido e opina sobre a profissão dele “ Acho muito perigosa as vezes. Tem agressão no meio de campo, das pessoas e dos jogadores”.Outra personagem importante que não hesitou em me dar uma entrevista, é Jennifer, de 13 anos, que faz questão de acompanhar a rotina do pai. A menina, estudante do ensino fundamental, diz que o ofício do pai há muitas discussões, brigas e xingamentos tanto por parte dos jogadores quanto dos torcedores. Tito dá uma boa dica que segundo ele é essencial e de ouro para se tornar um bom árbitro “Eles falam muito que juiz é ladrão, arbitro é ladrão. E se tem uma pessoa que precisa ter nome limpo é arbitro de futebol”.

Mesmo tendo almejado várias vezes a carreira profissional de árbitro, Tito ainda consegue expor a sua satisfação por ter uma pequena empresa de bebidas, por trabalhar como sapateiro e, claro, demonstra orgulho por ter na arbitragem não só um esporte, mas uma profissão que, mesmo sendo, um baixo complemento de renda para o sustento próprio e de sua família o deixa realizado por fazer o que ama.

Mais que um hobby

Uma história de amor com o futebol.

LUANA BERNARDES E LUCIANA FERNANDES

Por termos o título de “Brasil, o país do futebol”, muitas crianças crescem com o pensamento de crescer e ser jogador de futebol. É uma das principais brincadeiras nas escolas, nas ruas, dentro de casa, etc. O futebol desperta paixões. É um amor passado de pai para filho, geração em geração.

Para contar esta história, voltamos para os anos 80. Vamos contar um pouco da história de Adair Júnior. Um pequeno com um grande sonho…

Os pés descalços não cansam de correr atrás da bola. O sol forte de Goiânia parece não intimidar a brincadeira das crianças. A felicidade é visível, para aqueles pequeninos que só se imaginam como os grandes cracks dos gramados. Enquanto joga, uma janela da imaginação se abre e Adair se vê ao lado de Zico, tocando a bola, recebendo de volta e marcando um gol. Acorda desse sonho com um grito de seus amigos para que chute logo a bola.

Apesar de sua vontade de ser um crack do futebol se estender até a adolescência, Júnior se viu distante de seu sonho de ser jogador de futebol. Aos 16 anos, Adair se adaptava à nova realidade: ter que cuidar de seu irmão mais novo, já que sua mãe, solteira, tinha de trabalhar para garantir o sustento de todos. Ele não poderia mais jogar bola depois da aula.

No começo era difícil ver seus amigos brincando e não poder desfrutar da brincadeira. Agora troca fraudas, serve inúmeras mamadeiras. Entre banhos e mais mamadeiras, Júnior aos poucos via seus objetivos indo embora. Ainda podia contar com as aulas de Educação Física, mas não era a mesma coisa.

O tempo passou, se formou no ensino médio, se casou, teve um filho, ingressou no curso superior. Depois que a vida adulta chegou não lembrava mais de futebol. Havia deixado seu sonho adormecido em um canto de sua memória. Adair não imaginava o que estava por vir.

Em uma tarde de outubro de 2013, em seu trabalho, Adair sente um desconforto. Uma dor forte no peito. Ele se levanta, vai ao banheiro, molha o rosto, dá uma volta e bebe um gole de água. Engana-se pensando que vai passar, que é uma indisposição qualquer. Não imaginava que um infarto estava por vir. Sua pressão arterial chega à 17X14, muito alta. Júnior acorda na emergência do hospital com este diagnóstico. Segundo o médico este problema era decorrente de uma vida sedentária, má alimentação, estresse. Assustado, pensa em como essa doença poderia ter começado, mesmo ele sendo tão jovem, com apenas 30 anos. Pensa na vida que poderia estar chegando ao fim. Lembra de seu filho, sua família, em quanta gente poderia estar deixando para trás. Doenças não escolhem pessoas, cor ou idade. Elas aparecem. Mas ele estava disposto à lutar por sua vida.

Para Adair, esse susto bastou para que ele acordasse para outra realidade. Afinal, ele sabia o que fazer para manter uma vida saudável. Não fazia por falta de tempo. Com o tratamento e alimentação adequados, agora era a hora de voltar a praticar alguma atividade física. Sair do sedentarismo era fundamental para sua recuperação.

Foi quando se lembrou dos tempos de criança. O futebol sempre o fez feliz e sentiu vontade de jogar futebol, chegou a hora de voltar à correr atrás da bola. No começo, o médico recomendou uma atividade mais leve. De início a caminhada, depois corrida. Após dez meses de treinos leves, estava liberado seu futebol.

“Nunca mais deixarei de jogar. Estes dias em que me encontro com meus amigos para jogar nossa “pelada”, renovam minha mente. O cansaço vai embora. As dores nas articulações acabaram”, diz Adair Júnior.

Hoje, com 32 anos, volta aos gramados. “Me sinto um novo homem. Sinto mais energia, voltei a ser feliz! Nos dias que não têm futebol, faço minha caminhada, sempre

alternando com a corrida! Hoje me vejo como uma grande inspiração para minha família e amigos. Minha esposa passou a frequentar as aulas de musculação, cinco vezes por semana. Meu filho joga na escolinha do Goiás Futebol Clube. Hoje, me sinto mais feliz, de bem comigo mesmo. Espero que minha história sirva de exemplo para outras pessoas. O futebol é mais que um hobby pra mim, porque me proporciona alegria, saúde, bem-estar. Eu amo jogar futebol”, diz Adair Júnior.

O sonho perdido

EVANDRO ANDRADE

O jovem Wilmar Junior Teixeira, 25 anos, pelo menos duas vezes na semana calça a chuteira e sai de sua casa a caminho do gramado. Faz isso à noite, pois o trabalho e o pouco tempo extra, não permitem que ele pratique essa atividade durante o dia. Ele teve o sonho de ser um jogador profissional, mas acabaram surgindo outras oportunidades. Mesmo não conseguindo o engajamento em um time profissional, é praticante ativo do bom futebol amador, que apesar de não render dinheiro, ajuda-o a manter a saúde e a boa forma.

Campo de futebol amador, Videira. Foto: Evandro Andrade.

Wilmar Junior começou a jogar aos dez anos. Aos quinze tinha o objetivo  na cabeça de ser um grande jogador de futebol. Junior procurou as famosas peneiras e foi no Vila Nova,em 2006,  no Estádio Onésio Brasileiro Alvarenga,  sua primeira prova de fogo. Ele joga no meio de campo, posição bastante concorrida nos times de futebol, é o responsável por passar a bola para o atacante, nessa peneira, dez anos atrás, eram trezentos jogadores disputando vaga, e por incrível que pareça, somente Junior e mais três jovens jogadores conseguiram chamar a atenção dos olheiros. Junior foi convidado a partir do teste, a compor a base do time Vila Nova.

O resultado de ter passado na peneira tão concorrida foi uma notícia boa, mas as condições para custear suas despesas o preocupava, pois o clube não ofereceu o suporte mínimo necessário para que ele se mantivesse na equipe, não dispuseram calção, chuteira, meião.

Cecília Teixeira, mãe do jovem jogador, falou que “tinha que dar o seu próprio sitpass para que o filho chegasse ao treino”. A situação do jovem jogador nas categorias de base, não se sustentou por muito tempo, pois faltava dinheiro até para ir aos treinos, participou de alguns jogos e desistiu.

Marcelo Teixeira Meneses, primo do jogador, falou que “conheço a trajetória de Junior, ele é bom de bola, é uma pena que não tenha conseguido chegar ao profissional”.Além do Vila Nova, Junior jogou também nas categorias de base do Goiás, mas a história se repetiu, não tinha dinheiro nem para pagar o ônibus.

O garoto jogou por mais dois anos, participando de campeonatos amadores e com a ideia de ser um grande jogador de futebol ainda viva. Mas, aos dezoito a ficha caiu, a idade já estrava avançada para começar uma carreira de jogador profissional. Vendo a necessidade de sua mãe mergulhou no trabalho, começou como aprendiz de açougueiro no mercado do seu bairro, e foi aí que o projeto profissional tomou outro rumo.

Hoje, aos 25 anos, Junior trabalha em uma empresa que vende materiais elétricos, na função de almoxarife, disse que não pretende ser mais jogador profissional de futebol. Joga somente para manter a boa forma, e por pura esportividade. Mas, engana-se quem pensa que o jovem é um frustrado, falou que “pretendo construir uma família, sou evangélico e,almejo ser um pastor”. A história de Junior é bastante comum, projetos que são mudados pela experiência no tempo.

Camila Santos uma carateca franzina, mas dura na queda

JOÃO MESSIAS E MARA VIANA

Em meio aos cantos dos pássaros, em um final de tarde de domingo, estava a entrevistar uma dedicada jovem carateca, no bairro distante do centro da cidade, na região conhecida como Trindade Dois, por ficar a 12 km do centro de Trindade. Ela conta sua rotina de treinos, trabalho e estudo, envolta de vários livros e um notebook, na casa do namorado Gabriel Lopes de Amorim, que também é carateca e treinam juntos na mesma academia Deay Fit, no Setor Cristina, com o professor (sessei) Xexeu.

Camila Santos de Souza conheceu o Karatê quando cuidava de umas crianças e as levava para treinar “fiquei observando, na última vez que fui, o professor me perguntou se queria treinar, aí, quando cheguei em casa conversei com minha mãe e ela deixou, fui treinar e gostei”.

Camila começou a competir em 2011, com 15 anos e hoje com 20 está usando faixa roxa “agente começa com a faixa branca e se já estiver bem, apto a algumas lutas, aí muda de faixa com seis meses”. Ela diz que sempre foi dura na queda e quando começou os homens tinha preconceito com as mulheres no tatame mas hoje é normal. Ela já disputou o Campeonato Goiano e a Copa Trindade e nunca ficou fora do pódio “sempre estava ali, quando não era primeira, era segunda ou terceira, mas nunca fiquei fora do pódio”. Ela considera o título mais importante, o do Campeonato Brasileiro disputado na Bahia em 2015, que garantiu em equipe.

Camila Santos de Souza, carateca da Federação Esportiva Educacional Goiana de Karatê.

Em 2020, na Olimpíada do Japão, o esporte será disputado pela primeira vez nos Jogos Olímpicos, e Camila diz que “seria um sonho disputar os Jogos de Tóquio” e acrescenta, “o karatê terá mais visibilidade e mais pessoas vão passar a treinar, lá na academia muitas pessoas já voltaram, quando souberam que o karatê se tornou olímpico”.

Treinar, estudar e trabalhar

“Eu tenho 24 horas para tentar dividir, tem dia que dá outros não, a gente vai manuseando para dar tempo o dia inteiro”. Camila treina, principalmente, nos finais de semana, pois trabalha de estoquista em um supermercado de Goiânia, durante o dia, e a note estuda graduação em Marketing e o tempo que sobra é mais no final de semana, que faz cata, e exercício físico além de lutas.

Ela ressalta a necessidade de um patrocínio para a academia e que muitos atletas não conseguem competir em outros campeonatos fora da cidade pela falta de verba, pois, os pais não têm condições de pagar viagens e hospedagens para os filhos.

O sonho de um gigante

Os desafios do dia a dia e a vontade de conseguir um dia chegar na seleção brasileira de futebol.

ANA CAROLINE SOUZA

Guilherme jogando pelo FC-hansa 2016. Foto: Anton Bernhard.

Guilherme Esteves Lima estava preste a completar seus oito anos em 1999 quando seu pai Devair Fernandes Lima o levou pela primeira vez em um campo de futebol. Como Guilherme mesmo diz, “ não era o campo, mais sim um  terrão, cheio de pedra, mato, uma terra vermelha, um espaço bem precário.” campo apelidado por ele e seus colegas por “escolinha do peixe”, localizado no setor Vera Cruz em Aparecida de Goiânia.  Devair resolveu levar o filho ao terrão. Com  pés descalço, meio tímido, porém muito contente  Guilherme se juntou a outras crianças, a maioria mais velha do que ele. Devair logo percebeu que o filho levava jeito para o futebol  gostou do que viu,  continuou levando o filho pra jogar sempre no terrão, onde ele adquiriu experiência jogando cada vez melhor até completar seus treze anos.

Vendo o talento de Guilherme muita gente falava para Devair, seu filho tem talento, tem que procurar um time melhor. Um certo dia terminando o treino, Guilherme recebe o convite de um olheiro pra jogar no time do clube dos oficiais (Asberg), pai e filho como sempre juntos, se enche de alegria e esperança. Chegando na Asberg, Devair conta que Guilherme ficou emocionado  e feliz com a estrutura do local, já tinha outros garotos com experiências e que se destacava.

Guilherme logo se adaptou, foi ganhando experiência e se destacando. Não demorou muito aos 15 anos  veio a oportunidade do Guilherme ir pra escolinha do Vila Nova, adquiriu mais experiência, mais conhecimento do mundo do futebol  e assim ficou um ano e meio.

Em seguida mais um vez Guilherme recebe um convite de jogar no Goiás no Parque Anhanguera.  Iniciou no na escolinha do Goiás , passou pela pré equipe, logo começou a aparecer outras oportunidades começou a jogar com outras equipes, equipes melhores.

Com dezoito anos Guilherme começa jogar no Goiânia , dessa vez já  com contato profissional onde disputou o sub 20 e  o sub 18 pelo Goiânia, continuou jogando por dois anos no Goiânia, porem, só jogando futebol Guilherme não tinha como ajudar o pai em casa, onde estavam passando por dificuldades, foi ai que ele tomou uma decisão que contrariou muito Devair. Guilherme abandonou o futebol e começou a trabalhar em uma marcenaria e estudar a noite.

“magoei muito meu pai, mesmo contrariando os   sonhos dele , parei de jogar futebol’’. diz Guilherme.

Parecia ter desistido dos sonhos de jogar futebol, focava só no trabalho e nos estudos Devair continuava a incentivar o filho, pedindo pra ele voltar para o futebol. Guilherme voltou a jogar  futebol, mas com os amigos, tipo “pelada”. Certo dia, em uma dessas peladas, mais uma vez é observado por um empresário que o convida pra jogar fora dos Pais. Chegando em casa Guilherme  teve uma conversa com seu pai, e contou a novidade a seu pai Devair não cabia em si de alegria,  logo aconselhando o filho a aceitar e convite.

Chegando na Alemanha logo despertou a atenção de um time que se chama FCStahl, que o contratou, era um time de sexta divisão, foi contratado com um salario baixo no inicio, mas com moradia  e o visto que ele precisava pra ficar.  Mesmo com as dificuldades do clima, da língua, e ficar longe família, Guilherme viu ali uma grande oportunidade de mudar de vida, acabou ficando um ano e meio.

Foi foi para outro time, de quinta divisão chamado Malchow,  ficou seis meses. Guilherme, hoje com 23 anos, joga profissionalmente no FC Hansa Rostock mesmo longe ele diz que está feliz e  realizado por conseguir dar uma vida melhor para sua família. E cresce cada vez mais a vontade  de conseguir chegar a seleção brasileira de futebol.

“Sinto orgulhoso e feliz de ter conseguido chegar até aqui, mesmo com todas as dificuldades, quero realizar meu maior sonho de chegar a seleção brasileira de futebol’’.

Cãomedo-Paisagem sonora

Paisagem sonora – experiência acústica produzida pelos estudantes Jonnatha Gomes, Rauena Bezerra, Jaqueline Santos e Bruna Martins. A paisagem sonora de determinado ambiente revela a estética desse espaço, composto por imagens acústicas. Nesta produção,  latidos e gemidos de um cão se entrelaçam aos trovões e relâmpagos de uma tarde chuvosa para revelar a angústia, medo e apreensão deste animal ante aos fenômenos da natureza.

https://soundcloud.com/radiojornalismo-919344972/caomedo

 

A política no picadeiro

A Política no Picadeiro – O Programete  de rádio é uma sátira aos discursos políticos no Brasil. Os estudantes Bruna Martins, Jaqueline Silva, Vinicius Marques e Fábio Lucas coletaram áudios da internet, do rádio, da televisão e das ruas e criaram metaforicamente um espetáculo circense, onde os políticos e eleitores sãos os personagens.  O Programa realizado na disciplina de Produção Radiofônica dos Cursos de Publicidade e Propaganda da Faculdade Araguaia,  é uma sátira aos discursos políticos e trabalha com a noção de espetáculo da forma mais elucidativa possível – o circo.

Encontro de Egressos reúne ex- estudantes da Faculdade Araguaia para troca de experiências

Jornalistas e publicitários graduados na Faculdade Araguaia, em Goiânia, trocaram experiências com estudantes durante Encontro de Egressos na Semana de Integração Acadêmica dos cursos de Jornalismo e Publicidade e Propaganda. Com experiências em TV, Rádio, Agências de Propaganda e Jornal os egressos demonstraram sua habilidade no mercado e deram dicas aos futuros profissionais. A reportagem é de Jonathan Cavalcante com produção de Vinicíus Martins, Naddiny Ferreira e Avelino Matheus.

A pequena gigante do crossfit

Dedicação da aluna Renata Rodrigues contribui para que mulheres superem desafios e preconceitos nessa modalidade.    

RENATA BASTOS

Já se passavam das 9h da manhã de um sábado de agosto, em Goiânia, e o dia dava sinais que aquela manhã seria de “treino intenso e prazeroso”, assim definido por Renata Rodrigues Silva. O crossfit passou a ser uma espécie de amigo fiel e encorajador em que a cada treino, a dedicação e o esforço permanecem rentes a sua postura, carregando consigo a certeza gratificante de mais um propósito que será concluído. Pelos caminhos, um olá amigável e abraços confortantes de quem acabou de cumprimentar, são colegas que treinam diariamente com Renata. Ela retribui com sorriso sincero, entre abraços e apertos de mãos que em cada olhar atento, observa as particularidades do desafio que está por vir. O professor vai iniciar o treino, mas antes faz anotações no quadro negro, alguns colegas se divertem enquanto grupos de meninas ajeitam suas roupas e outros alongam. Os rapazes competem qual físico é mais definido e gargalhadas são inevitáveis. Pode-se ouvir alguém dizer “hoje eu vou queimar!” e nisso o professor que acaba de realizar suas anotações rebate “prepara que este é o desafio de hoje.” Todos se assustam.

Aluna Renata Rodrigues treinando crossfit. Foto: Renata Bastos

Aos 31 anos, Renata segue cheia de otimismo, talvez por acreditar que todos os anos, incansavelmente debruçados sobre uma escrivaninha de estudos, dessem força e motivação para realizar qualquer atividade. Desde os 23 anos, os livros são os seus parceiros diários, a luta incessante, abdicação de parte da vida não poderia trazer outros resultados, e é por isso que aos 24 anos teve como mérito sua primeira aprovação num concurso público conceituado. As noites de sono e trabalho gratificante ficam para traz em forma de boas lembranças e conquistas, agora ela percebe que outra batalha está por iniciar e tem pela frente alunos de crossfit que almejam a superação de seus limites, dia após dia. Renata arruma os cabelos, cada vez que os dedos entrelaçam entre eles, um rabo de galo se forma. Toque daqui, ajuste ali, finaliza com batom de cor suave. É a sua autoestima que agora aflora. Para completar, tênis apropriado e uniforme da academia completam o visual desse dia de treino. “Se prepare, hoje será pesado!”, esbraveja o treinador e amigo, Bruno Leonardo.

Renata leva nas costas, na altura dos ombros e em forma de tatuagem, a imagem de Nossa Senhora Aparecida, a fé é espécie de amuleto e assim ela segue a vida protegida pela sua crença. A regata azul faz questão de mostrar o desenho, essa decisão de marcar o corpo está movida por razões pessoais. Medindo 1,63 de altura, ela se torna grande o bastante para realizar exercícios que exigem força e preparo físico. Magra, aparência jovem, sorridente, seus cabelos pretos que outrora estavam amarrados, agora dão lugar a trança molhada. Suas têmporas regadas a suor requerem descanso. Hoje, Renata convidou uma amiga para o treino experimental, Marianna Novais, 29, mulher alta de olhos claros e cabelos castanhos parece exausta. É nesse momento de descanso que Marianna seca com a própria roupa o seu rosto suado pelo esforço. O apoio surge em forma de palavras “parabéns, estou gostando de ver Marianna, é bem puxado não é?”, e o balançar de cabeça afirmando soa como forma de sentença, fazendo as duas rir momentaneamente e logo Renata retoma o treino.

“ As noites de sono e trabalho gratificante ficam para traz em forma de boas lembranças e conquistas, agora ela percebe que outra batalha está por iniciar e tem pela frente alunos de crossfit que almejam a superação de seus limites, dia após dia”.

Espaço grande, espécie de galpão, pintado em branco e preto, centraliza o símbolo da academia a alguns metros do chão na parede. Na camiseta de Renata a mesma insígnia aparece, está ligada a cultura dos guerreiros Maoris e significa “resiliência”. O lugar possui cordas penduradas, caixas de madeiras, argolas suspensas e pesos que se prendem numa barra de ferro podendo ficar mais pesados conforme cada peso é inserido. Isso a faz refletir por um instante sobre essa descrição simbólica, pois sabe que precisa de muita força para prosseguir com o objetivo. Em outra parte do galpão, aparelhos de musculação tomam conta do território e estruturas de ferro formam um retângulo para apoio. Tudo é utilizado por Renata no treinamento de resistência.

A música alta trata de animar o pessoal que pouco a pouco chega. Várias bolas estão disponíveis para os alunos, cada um pega a sua esperando o sinal do professor para indicar o tipo do treino e os minutos a serem executado. Para aquecer, espécie de dança das cadeiras, brincadeira de criança, só que agora trocada por bolas. Todos correm em círculos e à medida que a música começa, algumas bolas são retiradas e quando o som para, alguém deixa de sentar. A diferença é, se a pessoa ficar sem a bola, não é convidada a se retirar, ela realiza exercícios orientados pelo professor: flexões, abdominais segurando pesos, burpees, entre outros. A música para. Renata fica em pé e nesse momento é definido o tipo de exercício que ela irá executar. Os burpees são escolhidos, Renata e mais três colegas realizam o que Bruno pede. O treinamento continua cerca de mais dez minutos e encerra com aplausos de todos.

Uma corrida em volta do quarteirão dá sequência ao comando da lista de exercícios que foram escritos no quadro negro. Mais de quarenta pessoas, incluindo Renata e Marianna, correm, freneticamente, a fim de concluir a etapa proposta. O sol quente lá fora e céu azul sem nuvens, típico das manhãs de agosto, parece deixá-los cansados, apenas uma leve brisa refresca momentaneamente à medida que eles retornam para aos suas colocações. O professor da academia não para. Não há descanso quando o objetivo é resistência. Bruno Leonardo, 27, é quem comanda essa turma neste sábado. Enfático e otimista, ele grita eufórico um “bora, bora, anima aí pessoal!”. Renata puxa Marianna que rebate com sorriso forçado, mas ao mesmo tempo determinado a não desistir.

Os alunos já observam o próximo exercício e enfileiram caixas de madeira no chão, deixando pequeno espaço para não baterem uns nos outros. Eles pulam e descem sobre elas várias vezes, sob o comando de Bruno. Esse exercício tem finalidade de fortalecer os músculos das pernas, barriga e lombar. Cerca de 30 pulos subindo e descendo encerra essa etapa. Renata demonstra força e equilíbrio ao concluir sua atividade no mesmo ritmo que começou e isso é resultado do crossfit, a mesma já não sente tantas dores e fadigas como antes. Já Mariana, sua amiga e convidada, sofre com as pernas trêmulas e um cansaço visível, sinal que a corrida não foi fácil e o treino com as caixas a deixou exausta.

A inspiração

Fabrício Silva, 34, irmão, amigo e referência de Renata. Assim é definido o carinho, respeito e amor por ele. A paixão pelo irmão vem seguida de uma voz embargada, olhos rasos d’água e sorriso trêmulo. Algo é certo, Fabrício é o tipo de irmão que tem os mesmos princípios de Renata, a parceria e a cumplicidade fizeram companheiros de luta, estudos e de vida. Isso deve ao fato de Fabrício também conquistar a aprovação num concurso público e ver seus sonhos realizarem na medida em que seu esforço era demonstrado. Ao ingressar no crossfit, ele levou a irmã a conhecer e apaixonar pelo esporte e agora ela supera desafios, começando com o preconceito neste esporte. Cada vez mais mulheres treinam, competem profissionalmente e Renata já sofreu na pele ao ver suas mãos calejadas, sendo assunto de deboche numa roda de amigos. E isso a incomodou? “Pouco, mas não pelas mãos calejadas e sim pela falta de respeito com a minha escolha”, enfatiza. Ela acredita que gerar essa inquietação e reflexão quanto ao papel feminino em esportes que exigem força e resistência, proporciona nova forma de enxergar a mulher na sociedade.

A competição de crossfit, ocorrida no mês de junho no Goiânia Arena, na Capital, contou excelentes atletas de nível nacional. A academia em que os irmãos treinam, fez a seleção de duplas e trios (por equipe) dos alunos para o campeonato e Renata não participou. Apesar de estar há algum tempo no crossfit, ela acredita não ser preparada para competições ainda, mas foi torcer pelo irmão, que iria disputar a competições por equipes com três competidores cada. A academia saiu bem na competição nesse seguimento, dentre oitenta participantes por equipe, conseguiu o 25º lugar no ranking do campeonato. Para Renata, colocação como essa, foi sem dúvida divisor de águas para o irmão e motivação para ela. O mérito veio após ele ser diagnosticado com diabetes do tipo 1.

Não é por acaso que os irmãos se preparam para realizar o próximo exercício. Eles amam a companhia do outro e fazem questão de estarem juntos. O treino, agora orientado pelo professor e amigo Umberto Filho, 31, exige atenção e resistência. Trata-se do levantamento de barras, Renata ajusta quinze quilos em cada lado, enquanto Fabrício coloca sessenta, no total. Fabrício segue atrás de Renata observando-a. Cada movimento é acompanhado pelo professor, que anda do lado para outro identificando possíveis falhas na execução, e também, pelo irmão. A preocupação com essa atividade deixa claro, qualquer movimento incerto pode lesioná-los. Os pesos agora são erguidos e Renata solta um gemido na última sequência de três levantamentos, sentindo cada músculo de seu corpo contrair. Ela agora reveza com outra amiga, questão apenas de beber água e retomar o lugar.

Umberto Filho reitera o quanto Renata e Fabrício são importantes para ele, amizade que nasceu de um esporte, vai muito além dos treinos e cobranças. Renata admira o amigo e treinador, argumenta que os resultados adquiridos ao longo dos treinamentos são frutos do empenho e seriedade do professor. Ele acredita na força das mulheres no crossfit, vê essa realidade como promissora uma vez que o preconceito contra as mulheres no esporte em geral tem se superado dia após dia. “Hoje temos mais mulheres que homens aqui na academia, Renata é uma delas, e é bacana ver essa evolução. Não existe diferença entre homens e mulheres aqui, o preconceito existe na cabeça de quem desconhece o esporte.”, diz Umberto.

“Hoje temos mais mulheres que homens aqui na academia, Renata é uma delas, e é bacana ver essa evolução. Não existe diferença entre homens e mulheres aqui, o preconceito existe na cabeça de quem desconhece o esporte”.

Quando Renata encontra pela frente cordas, percebe que precisa subir até o teto usando apenas os braços e pernas como apoio, se alegra ao dizer que foi o seu maior desafio, não acreditava que conseguiria algum dia. Excitada, demonstra com segurança para a Marianna que seus medos foram superados. A cada movimento feito para se elevar, expressão fechada tomava-lhe a face, a decida necessita de segurança, tombo ou simples torção no pé poderia afastá-la por muitos dias do crossfit. Ao pisar no chão, levou a mão sobre a perna dizendo que a corda a queimou, mas já se acostumou, deixando assim amiga menos tensa. Seus olhos atentos almejam o próximo exercício, ela vai levantar peso mesmo acompanhando a amiga no treino dos iniciantes. E dizer que esse treino foi para iniciantes acaba desconcertando quem vai para uma aula experimental. Caras e bocas. Longa gargalhada finaliza a seção.

O treino para veteranos consiste em simular um circuito competitivo de levantamento de barras com pesos, subir em cordas numa sequência de vezes, fazer barras erguendo o corpo acima do próprio corpo, corridas, abdominais com pesos todos cronometrados. Renata faz esse treinamento pesado e apesar de ser nova no esporte, batalha há muito tempo pela igualdade quando o assunto é a luta contra o preconceito. Ela vai à academia ao menos quatro vezes por semana, quase sempre acompanhada de Fabrício. Sua condição física melhorou, ganhou resistência, equilíbrio e força com os treinamentos e não pensa em abandonar o esporte tão cedo. Marianna fala na possibilidade de se matricular no crossfit, Fabrício foca cada dia mais nos treinos e quanto ao futuro do esporte, Renata reitera a vontade de popularizar cada vez mais entre as mulheres, atrair parceiros para essa modalidade e ser reconhecido também como “o esporte de mulheres de força em prol da igualdade.” finaliza. O treino de hoje é encerrado e alguns alunos dispersam.O sábado foi como Renata esperava. Intenso e prazeroso.

“… quanto ao futuro do crossfit, Renata reitera a vontade do esporte popularizar cada vez mais entre as mulheres, atrair parceiros para essa modalidade e ser reconhecido também como “o esporte de mulheres de força em prol da igualdade social”.

Longe dos treinos, a vida de Renata segue normal. O uniforme azul fica pra traz, dando lugar à sapatilha, shorts, blusa e brincos prateados para acompanhar. Ela vai num passeio com sua mãe que a recebe com alegria. Tarde agitada com compras e risadas, elas se divertem. Nas sacolas, roupas de ginástica e tênis novo, mesmo distante da academia ela não esquece os treinos. A intensidade liga a Renata ao esporte, talvez seja esse um dos motivos para tanta dedicação. Essa característica a faz almejar os resultados que lhe dão prazer e recompensa. A persistência nesse esporte seja contra o preconceito ou a superação de seus próprios medos, de fato resta dizer que o crossfit ensina a ela grande lição: lugar de mulher é onde ela quer estar e não onde a sociedade determina.

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